Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero

Atualizado em 13/09/2014 para a Semana da Diversidade da FEA.

Por Juno

Sobre esta proposta

(Quando aqui falo do “X”, estou falando de construções como “todxs”, “meninxs”, “queridx”, “bonitx”. Embora eu vá me focar no X, porque é o mais utilizado, o mesmo vale para outras utilizações como @, *, entre outras.)

Desde que escrevi esse texto, o que faz um bocado de tempo, muitas pessoas reagiram de diversas formas. Uma boa parte, muito apegada à gramática, não gostou nenhum pouco da proposta porque ela realmente propõe alterações que brincam com o que hoje se considera “certo” ou a maneira “adequada” de falar. Obviamente, ao propor novas formas de fazer linguagem uma pessoa estará rompendo com uma determinada norma. Nunca foi minha intenção trabalhar dentro dos limites da gramática normativa.

Entendemos que muitas pessoas simplesmente não querem se dar ao trabalho. Este é um caso para ser julgado entre os indivíduos. Se você não gostaria de fazer um esforço por outra pessoa, é uma questão ética entre você e o restante da sociedade. Muitas vezes na vida tomamos a decisão de não nos importarmos. Uma pessoa possui certas questões da construção da identidade dela, da forma como ela está tentando se entender, que requerem esforço da parte dos outros. Quando esta solidariedade é suprimida, resta a marginalização daquela pessoa na direção de ter de se guetificar junto com as outras que são como elas, que é o que costuma acontecer com as pessoas trans no geral, seja por não quererem lhes tratar de forma neutra ou por insistirem em dizer ele onde seria ela ou ela onde seria ele.

A linguagem neutra é uma ferramenta para universalizar a possibilidade de superar esta questão de forma que resolva a questão, ela não é uma imposição moral. A imposição moral está nas demandas que fazemos enquanto um povo, e existe hoje a demanda para que as pessoas trans sejam respeitadas e consideradas sujeitos de sua própria liberdade, autonomia e identidade. Muitas pessoas no caminho não irão se dispor a ajudar, e algumas irão se dispor apenas parcialmente. No grosso, é raro que as pessoas se adequem bem à linguagem neutra a não ser que elas consigam entender isto como um exercício calmo, paciente. Isto envolve muitas irritações no processo de aprendizagem porque as pessoas não estão acostumadas a se importar com estas questões.

A linguagem neutra não é um exercício constante, o exercício está em aprendê-la, dispor-se a tentar, e não em exercê-la. A linguagem neutra não é mais difícil do que aprender qualquer outra forma de falar, ela basta ser aprendida, e então poderá ser usada fluentemente. Ela é um conjunto curto e muito rápido de entender, basta desenvolver a prática, o costume. Mas por mais simples e fácil que se torne depois que a pessoa efetivamente tenta, o processo de tentar acompanha um certo desprezo, um certo desdém pela proposta. Nesse sentido a grande maioria das pessoas desistem de serem tratadas de forma neutra. Assim cria-se o conceito da “fase”.

Nós chamamos de “fase” muitas coisas que, através da pressão social, forçamos as pessoas a abandonarem. Por exemplo, uma identidade feminina, que uma pessoa adota, e depois de um tempo volta a apresentar-se da forma como era antes. A isto muitas vezes não se deve simplesmente o fato de “passou” ou “foi uma fase”, mas que foi insuportável tentar, e que foi mais fácil desistir. Nós constantemente desistimos daquilo que queríamos por causa das dificuldades. Não é difícil com pessoas que possuem maiores ambições na construção de suas identidades, que ousam querer ser algo considerado pela maioria como absurdo, irracional, anti-científico.

Eu já pedi às pessoas que me tratassem de forma neutra, depois pedi que o fizessem no feminino, hoje em dia digo-lhes que tanto faz, que façam como preferirem. Acaba que a pessoa não consegue se sentir confortável com nada, e perdura um sentimento constante de alienação em relação ao gênero e todas as suas categorias. O acesso negado a todas elas. A incompatibilidade com qualquer coisa. É um fato de uma sociedade onde nossos potenciais estão extremamente castrados. As pessoas não participam desse sistema por má fé, não negam o tratamento neutro porque querem o pior (ao menos não todas), mas elas acabam executando esta ordem, a ordem de manter as bases do nosso mundo, assim como nós o conhecemos, exatamente como estão.

Para aprender linguagem neutra e usá-la basta querer. Ela é útil por diversos motivos. Se você não gostaria de usá-la, você pode usar o X ou pode falar como preferir. A questão é que neste processo você estará decidindo se afastar de um determinado grupo de pessoas, e que estas pessoas estão extremamente isoladas devido à decisão constante da maioria de fazer isso. Através deste mecanismo não só as pessoas trans estão excluídas, no desemprego, nos modernos circos dos horrores da mídia de massa, mas todo o povo oprimido. Tem a ver com a forma como a cultura e a opressão exercida pelas elites se atravessa e molda nossa visão de mundo. Quanto mais solidariedade, maior será o poder do povo. Venha de onde vier.

Peculiaridades das pessoas não-binárias

Pessoas trans* frequentemente possuem preferências por formas de se falar que estão desalinhadas com aquela designada a elas. Na maioria, mulheres trans* preferirão serem tratadas no feminino, homens trans* no masculino e muitas pessoas não-binárias de forma neutra, ou no masculino ou feminino de forma alinhada ou não à designada a elas no nascimento.

Nos três problemas enumerados acima, podemos notar que as pessoas trans* não-binárias possuem peculiaridades ao lidar com todos eles.

Em (1), não existe uma passabilidade para pessoas não-binárias. Nunca aparentam-se não-binárias porque ninguém jamais presumirá, ao olhar para como se vestem, falam, isto é, “como são” que não são “nenhum dos dois”. Sempre será presumido que uma pessoa é homem ou mulher. Desta forma, é virtualmente impossível que alguém “acerte” estas marcações, exceto nas raras vezes que o fizerem não porque percebem serem pessoas não-binárias, mas porque não conseguem decidir se as encaixam como homens ou como mulheres. Dessa forma, estarão sempre à margem das soluções que indicam às pessoas que simplesmente “chutem” de acordo com como a pessoa se apresenta.

Desde a publicação deste texto originalmente, foi levantado que algumas pessoas podem ser dar a entender serem não-binárias pela sua aparência. Este entendimento é falso, faz sentido somente ao observador. Androginia não é sinônimo de não-binariedade, uma pessoa cis (que não é trans) pode muito bem ser extremamente andrógina e uma pessoa trans pode muito bem aparentar ser do gênero considerado “oposto” ao dela, bem como pode ser andrógina também.[1]

Em (2), não existe nenhum país no mundo onde pessoas não-binárias possam efetivamente, de forma regulamentada, serem reconhecidas em seus documentos. É muito mais complicado que uma pessoa não-binária consiga ser reconhecida nas burocracias do Estado, das instituições, de universidades, empregos, etc como completamente fora das opções do que como uma delas, ainda que essa posição seja contestada. Frequentemente o caso é não o de quem é expulso de uma categoria, mas o de quem não possui uma categoria.

Algumas pessoas levantaram que há países no mundo onde isto é sim possível. Estou ciente destas notícias e agradeço se alguém quiser encaminhar-me quaisquer novas notícias, mas se você ler o acima disposto verá que não, não há país no mundo onde as pessoas trans não-binárias possam de forma regulamentada e desburocratizada fazer isso. Assim como no Brasil isto não é realidade nem para homens e mulheres trans. Precisar da aprovação de um juiz ou de um parecer médico não é satisfatório.

Em (3), os gêneros das pessoas não-binárias costumam ser muito mais difíceis de explicar às pessoas, de forma que “não ser”, “ser nenhum dos dois”, ou ser qualquer um deles de forma não-normativa (bigênera, multigênera, pangênera, etc) será algo encarado como uma invenção, uma tolice, etc, porque estas experiências são apagadas, e estão sempre na margem. É certamente mais complicado explicar a alguém que você não é nem homem, nem mulher do que explicar que você é homem ou mulher, apesar de não assim terem te designado no nascimento.

Estas dificuldades demonstram no geral como o sistema está orientado no sentido de preservar uma estrutura rígida, de dois gêneros. Todas as práticas que retornam a estas afirmações são dificuldades encaradas porque organizamos o mundo ao redor destas duas categorias.

Por todos esses motivos, é importante perceber que construções neutras de gênero são importantes para tornar o mundo mais vivível às pessoas trans* não-binárias, e que elas ocupam um local importante nesta discussão sobre neutralidade e sobre o uso da linguagem demarcada. Em nossos cotidianos, as marcações de gênero e as tentativas de torná-las neutras ou melhores frequentemente falham nesse quesito específico, como em “todas e todos”, “homens e mulheres”, “senhoras e senhores”, “masculino e feminino”, “todos/as”, “srs(as)” etc.

Se você recebeu esse texto de uma pessoa não-binária que queria que você aprendesse como referir-se a ela: por favor, tenha empatia e não trate isto tudo com leviandade. Isto é importante e são pouquíssimas as pessoas que realmente se importam. Tente ao máximo que conseguir, não se acanhe em parar no meio da frase e pensar ou pedir ajuda, aprenda junto com a pessoa e aos poucos você pegará o costume e falará naturalmente com ela. Não é um bicho de sete cabeças e conjuntamente é possível que consigam aprender cada vez melhor.

Por que abandonar o X?

  1. O X não é acessível para leitores de tela. Pessoas com deficiência visual não conseguirão fazer programas de leitura de tela pronunciarem corretamente o texto.
  2. O X não torna as coisas mais fáceis de entender. Quanto mais simples e direta for a nossa linguagem, melhor poderemos nos fazer entender  Quando a intenção é fazer textos fáceis e didáticos, o X pode ser um constante entrave para quem está lendo.
  3. O X não é pronunciável. Nós não podemos, em voz alta, usar o X. Isso é problemático especialmente para pessoas trans* não-binárias, para quem essa vocalidade é necessária no dia-a-dia.
  4. O X não transformará a linguagem. Se o X é restrito à língua escrita, então ele não irá alterar a forma como falamos! Isso significa que ele não influenciará como, no dia-a-dia, nos referimos às pessoas, e que no fim das contas, ele não alterará nem a linguagem escrita, perpetuando-a como binária, e a forma neutra como restrita a determinados contextos “feministas”, “lgbt”, “trans”, “de esquerda”.

Como falar de forma neutra sem o uso do X?

Tenha calma e aprenda no processo

Não pense que você vai ler o que está descrito abaixo e pegar o jeito de uma hora para a outra. Conforme você se pegar no meio das frases, conversar com a pessoa, se você e ela se ajudarem, a linguagem neutra vai se tornando hábito. Pense nos exemplos abaixo como formas de começar e de elaborar, e construa a linguagem neutra de forma natural.

Junto com a outra pessoa, vá falando de forma neutra, se deixe corrigir sem estresse quando necessário, e aos poucos aprenderá a falar de forma neutra. É uma questão de prática.

Utilize generosamente termos neutros como “pessoa”, “indivíduo”, etc. para retirar o gênero marcado diretamente. Coloquialmente, qualquer palavra serve.

Ela partiu > A pessoa partiu / essa pessoa partiu

A casa dela > A casa da pessoa

Todas as presentes > Todas as pessoas presentes

Quantas temos aqui? > Quantas pessoas temos aqui?

As presentes cujas bolsas ficaram no jardim > As pessoas presentes cujas bolsas ficaram no jardim

Boa tarde a todas > Boa tarde a todas as pessoas / boa tarde a vocês / boa tarde

Elas avançaram na competição > As pessoas (ou “estas pessoas”) avançaram na competição

Ele nunca vai embora > Essa pessoa nunca vai embora

Sua namorada > A pessoa com quem você namora / A pessoa que namora com você

Minha > A pessoa minha irmã

Minha irmã > A pessoa minha irmã

Tua irmã > A pessoa sua irmã / A pessoa que é sua irmã

Nossa irmã > A pessoa nossa irmã

(Nota: O português provavelmente não oferece uma forma melhor de fazer isso com palavras como a acima. O que podemos fazer é literalmente sugerir a desgenerificação ao propor que “irmã” se refere a “pessoa”. Como a construção não é usual, ela já impõe um motivo.)

Aquelas que ganharam estão liberadas para ir > Quem ganhou pode ir / Aquelas pessoas que ganharam estão liberadas para ir

Ao invés de usar um pronome, repita o nome ou suprima o pronome (melhor)

Ariel estava aqui ontem e desde então ela foi embora > Ariel estava aqui ontem e deste então Ariel foi embora / e desde então foi embora

Se eu quisesse ficar com Ariel, teria dito a ela > Se eu quisesse ficar com Ariel, teria dito a Ariel / teria lhe dito

A casa dela > A casa de Ariel

O Rio a inspira profissionalmente > O Rio inspira Ariel profissionalmente

Suprima artigos e pronomes desnecessários

A Ariel > Ariel

com a Ariel > com Ariel

Ela partiu > Ariel partiu

Eu fiquei com a Ariel > Eu fiquei com Ariel

Como pintora ela conquistou muito dinheiro > Pintando, conquistou muito dinheiro

Logo ela explicará seus motivos > Logo explicará seus motivos / Logo Ariel explicará seus motivos

Prefira alternativas neutras como “de” (ao invés de da/do) e “lhe” (ao invés de a/o)

da Ariel > de Ariel

Essa carteira é da Ariel > Essa carteira é de Ariel

Se eu quisesse ficar com Ariel, teria dito a ela > Se eu quisesse ficar com Ariel, teria lhe dito

A casa da Ariel > A casa de Ariel

Utilizar a voz passiva e o gerúndio, entre outras mudanças, são formas interessantes de desgenerificar. Do manual para uso não-sexista da linguagem:

“S. Semântico: Todos os trabalhadores poderão ir ao jantar com as suas esposas
Alternativa: O pessoal poderá ir ao jantar acompanhado.
S. Semântico: Os estudantes não poderão receber visitas femininas nos
dormitórios.
Alternativa: Não se permitem visitas nos dormitórios

[...]

Por exemplo, podemos dizer: O nível de vida em São Paulo é bom
Em lugar de: Os paulistanos têm um bom nível de vida
Podemos dizer: O pessoal docente da Universidade protestou por…
Em lugar de: Os professores da Universidade protestaram por…”

Mude a estrutura dos verbos na frase:

Você é muito requisitada? > Te requisitam muito?

Você está toda molhada > Você se molhou totalmente

Você está cansada? > Você se cansou?

Você é baiana? > Você é da Bahia?

Você está linda > Você está uma pessoa linda / Que lindeza você está / Sua roupa está linda / Seu corpo é lindo

Você está registrada > Eu te registrei / seu registro está feito

Manual para uso não sexista da linguagem

Para uma referência mais extensiva sobre linguagem neutra em português, recomendo o material “Manual para o uso não sexista da linguagem”, de Paki Venegas Franco e Julia Pérez Cervera pela UNIFEM. Clique para baixá-lo. O manual deve ser lido com um olhar crítico, possui passagens onde faz abordagens teóricas sobre gênero que talvez não sejam as mais adequadas, mas pragmaticamente falando tem um bocado de exemplos e dicas úteis.

Notas:

[1]. A variedade de configurações possíveis no fim transforma o próprio conceito de “passabilidade” em algo muito limitado. A questão não é como nos veem, mas principalmente como nos tratam. Configurar-se como sujeito de uma opressão na sociedade não tem a ver simplesmente com te verem de uma determinada forma (como começamos a pensar se nos deixamos levar muito pela política identitária, quer ela se pretenda “feminista radical” ou não), mas como suas condições te forçam e limitam no sentido de como você vai conseguir ser visto. Neste sentido por exemplo a passabilidade muitas vezes é mediada pela classe. As opressões não existem separadamente, os sujeitos não são oprimidos por isto ou por aquilo, os sujeitos são oprimidos porque são entendidos como sujeitos a se oprimir. Delimitar um determinado “motivo” (por exemplo, “ser lido como homem”, “ter sido socializado como homem”) sem se perguntar sobre o sem-número de outras questões que marginalizam, segregam e matam alguém no máximo será capaz de criar correntes de pensamento e militância política que, fadadas a serem só isto, correntes políticas sectárias, no serão um fardo a ser arrastado por motores mais transformadores que visem realmente enfrentar as formas de marginalização, todas elas, que incidem sobre as pessoas.

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55 comentários sobre “Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero

  1. Muito legal! Eu sempre me incomodei com o x justamente por não conseguir usar na linguagem falada. Mas é realmente um aprendizado contínuo e longo não usar gêneros na comunicação. Obrigado pelas ideias e sugestões =)

  2. Muito legal o texto. Sempre me incomodou essa prática de usar @ ou x, justamente por ser uma estratégia muito limitada à internet e a certos grupos que fazem uso de redes sociais. Mas tenho uma questão: boa parte das sugestões apresentadas batem de frente com o “jeito de falar” de algumas regiões e produzem uma artificialidade na fala… Me parece complicado incluir a palavra “pessoa” no meio de algumas frases cotidianas, já que a tendência da linguagem oral é, em geral, a da síntese e da simplificação. Como atitude política, capaz de gerar um estranhamento saudável, acho interessante, mas aí não estaríamos caindo no mesmo problema do uso do X?
    Abraços

    • Oi, Gustavo.

      O problema do uso do X é criado porque ele não é útil oralmente, e prejudica as pessoas com deficiência visual. O estranhamento que ele causa, como você propriamente aponta, é saudável. Sendo assim, não estamos caindo “no mesmo” problema.

      Como poderíamos tornar a linguagem menos generificada sem causar nenhum estranhamento? É completamente impossível.

  3. Sempre me deparei com as questões que tu colocaste aqui. Usar o x gera, de fato, muito mais confusão em nossas cabeças. Principalmente, na cabeças daquelas pessoas que desconhecem o debate acerca de identidade de gênero.Muito bom teu texto. Cheguei aqui através de um link da Nina e pretendo voltar mais vezes.

    Um beijo.

  4. Muito bom o texto, tem umas observações bem interessantes e pertinentes. Usar o ‘x’ como variável para referência é uma alternativa de certa forma limítrofe na comunicação, além de ser geralmente seguida de explicações (tá, sabemos que isso não é exclusividade do uso de ‘x’, mas para usar em meio acadêmico por exemplo deve ser acompanhado de uma nota explicativa. Usando algumas alternativas que você citou, não precisaria).

    De qualquer forma, acho que uma forma de referência não exclui a outra, pelo menos na escrita o uso de ‘x’ é relativamente compreensível, e em alguns meios (fora da internet, inclusive) já está bastante difundido. Na fala, já vi muito o uso de ‘x’ com som de ‘cs’ ou de ‘e’ mesmo (mas em alguns casos bate com um exemplo que você citou).

  5. O importante é respeitar toda criação. Neste momento buscamos formas melhores de convívio, e devemos aceitar as pessoas que ainda se prendem a linguagens na qual foram criadas ou nas renovadoras, o importante é o que o coração está absorvendo neste novo mundo, paz a todos, rini

  6. Gostei muito de seu texto. Obrigada por compartilhar.
    Gostaria de perguntar algo: o pronome “pessoa” me parece indiferente ou agressivo, talvez por ouvir este pronome sendo usado com ironia… Isso é só impressão da minha pessoa ou outras pessoas sentem-se assim também em alguns casos onde tem esse pronome?

  7. Isso ainda me gera muito estranhamento… Eu concordo totalmente com o problema da binaridade de gênero e da neutralidade masculina na língua portuguesa, mas ainda acho que não encontramos uma solução perfeita… Posso estar sendo pessimista, mas acho que seria impossível aplicar essas regras sempre, acho que acabaríamos deixando escapar um “os trabalhadores” no sentido neutro sem querer, o que enfraqueceria demais tudo, pq soaria como se estivéssemos falando só de homens nesse ponto (menos neutro do que atualmente). A operacionabilidade da fala é importante demais para ser ignorada… Acho que a única solução possível seria a criaçao de outro pronome, como se usa em linguagem coloquial às vezes…..

    • Oi, Anna.

      Isso gera estranhamento justamente porque é uma ruptura com a forma extremamente generificada com a que falamos. Certamente não será de um dia para o outro que falaremos de forma neutra e que não escapará nenhum “os trabalhadores”. É um processo de mudança, e ele inclui novas práticas como a proposta aqui.

      A criação de um novo pronome não resolveria o problema, dado que em português a generificação possui partículas por toda a língua, não só nos pronomes.

      O estranhamento é a intenção.

      Beijos.

  8. Mas eu digo novo pronome com nova terminação. Como o “linde” que vc disse ali em cima. Poderíamos adotar aquela sua ideia coloquial pra linguagem culta. Aí todas as palavras que atualmente tem gênero passariam a ter uma terminação neutra (ex: “deputade”, incomodade”). O estranhamento nao é simplesmente pela falta de gênero, é pela construçao diferente e nada prática. Temos pronomes, adjetivos e substantivos que funcionam sozinhos e retirar tudo isso, colocando sempre um substantivo no meio, me parece menos operável que inventar outra terminação para utilizar nas estruturas já existentes.

    • O estranhamento é, sim, pela construção ser diferente, e é isto que a torna menos prática, o fato de que ela é nova em relação à norma estabelecida.

      E o mesmíssimo processo aconteceria com a criação de uma nova vogal (!). Também geraria estranhamento e criaria uma ruptura. O fato de uma mudança ser oficial não significa que não causará estranhamento. Certamente a criação de uma nova vogal para os fins que você propõe causaria muito estranhamento, tenha certeza, e para que o seu uso se generalizasse seria necessário esforço tão grande ou maior do que o necessário para por em prática as sugestões aqui dadas.

      Entendemos que uma mudança oficial tem maior potencial, não temos discordância nisso, e seríamos completamente a favor de uma mudança oficial, tenha certeza. Mas não podemos (1) ter a ingenuidade de achar que o motivo pra isso é que não causaria estranhamento, porque causaria (2) e principalmente não podemos achar que porque uma mudança oficial seria “melhor”, então podemos descartar as tentativas de mudança independentes, como a proposta aqui, como se essas propostas não fossem elas próprias parte de um processo que pode desaguar numa mudança oficial.

  9. Não, não, acho que estou me expressando mal… Meu ponto não foi o fato de ser ou não oficial, mas o conteúdo da mudança… Eu gosto muito do hábito que vem se disseminando entre alguns círculos do uso do “e” (do exemplo que vc deu, de “linde”), pq ele é fácil, substitui uma terminação numa estrutura que já existe, e não precisa de nenhum artíficio, rodeio ou pensamento mais elaborado para aplicar. Quero dizer, nada fica mais difícil de dizer com ele, é só substituir sempre e falar da mesma maneira. Mas concordo que a coisa não é nada simples, que precisa partir de nós mesmes e que SEMPRE vai gerar estranhamento.

    • Também gosto desse artifício e acho útil de forma informal, Anna, mas é preciso atentar para o fato de que:

      1. Você não vai poder usar isso em ambientes formais, como o emprego, ou documentos, cartas formais, etc.
      2. Você vai ser incapaz de neutralizar certas palavras com ele, como por exemplo “ele”, “dele”, etc.

      Então ele precisa ser uma ferramenta secundária e informal. Isso não o torna inútil, mas faz com que sejam necessárias as outras ferramentas propostas no texto.

    • Oi, Alina.

      Diante de inúmeros laudos atestando que Norrie era uma pessoa “psicologica e fisicamente andrógina”, uma corte deferiu que tinha a possibilidade de não conter em seus documentos que fosse homem ou mulher. Essa possibilidade foi extendida para crianças intersexo, e não para pessoas trans* não-binárias verdadeiramente agenciadas de fato a desmarcar seu gênero através da autodeterminação.

      Não consideramos que o caso na Austrália configure que pessoas não-binárias possam “efetivamente, de forma regulamentada, serem reconhecidas em seus documentos.”

  10. Pingback: Externas | Incandescência

  11. Pingback: Linguagem inclusiva de gênero em trabalho acadêmico

  12. Qual a posição das pessoas que lutam pela linguagem inclusiva de gênero, no Brasil, sobre outras línguas? A citar como exemplo o francês, que também tem suas marcações se gênero das palavras e verbos, e nos fóruns franceses que frequento, pouco vejo esse tipo de revindicação ou luta – na realidade, ao meu ver, os franceses e as francesas pouco se preocupam com o “binarismo”.

  13. E se considerássemos que o artigo “o” refere-se a “ser humano” e o artigo “a”, à pessoa? Usar diretamente “pessoa” é um tanto desconfortável numa situação corriqueira da língua.

    • Oi, Lucas.

      Se “considerarmos” que o artigo se refere a “ser humano” ele não necessariamente se referirá a ser humano. Não basta que consideremos, é preciso arrancar o gênero da linguagem.

      Sim, usar uma linguagem neutra causa certa desestabilização da nossa linguagem altamente generificada. Isto é perfeitamente normal e é de fato benéfico. Não vamos conseguir transformar a linguagem sem causar nenhum estranhamento. Se não causamos estranhamento, é porque não estamos mudando absolutamente nada mesmo.

  14. Pingback: Manual para o uso não sexista da linguagem | Diversidade Sexual, Etnicidade e Sustentabilidade

  15. Muito bom o texto! Facilita a vida de quem ainda se confunde (eu, por exemplo!). Só um comentário extra: você disse que “não existe nenhum país no mundo onde pessoas não-binárias possam efetivamente, de forma regulamentada, serem reconhecidas em seus documentos”, né? Então, não é a situação ideal ainda, mas na Austrália já tem um começo disso sim. Já dá pra deixar “não especificado”, pelo menos. Achei legal dizer. Atés.

  16. Pensemos nos caso de uma apresentação pessoal “Eu sou ‘fulano de tal’ do sindicatos dos trabalhadores do comércio”. Como não utilizar ‘trabalhadoras e trabalhadores’ do comércio?
    Não ficaria estranho “das pessoas que trabalham no comercio” ou “Do Sindicato de quem trabalha no comercio”. Fico pensando em pronunciamentos em grandes públicos e nos atendimentos ao público, principalmente no setor público

    • Recebi o link para esse texto exatamente porque tive dúvidas sobre o tratamento neutro que devo dispensar a pessoas não-binárias no atendimento ao público no setor público.
      Posso garantir que, como toda mudança, exige algum esforço mas o respeito a todos os indivíduos com que tratamos diariamente exige tal cuidado. Com o tempo, o estranhamento passa e a mudança se naturaliza e fica.

  17. Parabén pelo texto, muito bem escrito. Só comento para informar o erro de transitividade verbal cometido na frase abaixo: namora-se alguém (e não com alguém)
    Sua namorada > A pessoa com quem você namora / A pessoa que namora com você
    V o certo seria V
    Sua namorada > A pessoa que você namora / A pessoa que namora você

    • Não, não é um erro de transitividade, é q a gente parte do princípio q todos podem ser poligâmicos, assim seria:
      Eu namoro com minha namorada outra pessoa.
      minha namorada >A pessoa com quem eu namoro Leticia/ a pessoa que namora comigo Letícia
      :P

  18. acho muito interessante, mas é um pouco difícil para pessoas que nao tem portugues como língua nativa (nesse ponto peco desculpa por todos os erros que vao seguir e os acentos circunflexos que faltam…nao os consigo fazer com o meu teclado) …especialmente usar o gerundio e a voz passiva eu tento evitar sempre :D…na minha língua materna (alemao) temos o mesmo debate sobre a neutralidade de gênero. Nos últimos anos têm sido desenvolvidos conceitos diferentes de neutralizar a línguagem e foi desenvolvido uma maneira que seria talvez interessante para a língua portuguesa também.
    Por exemplo para dizer “a professora” em alemao é “die Professorin” (artigo+ substantivo+’in’ para a forma feminina) e para neutralizar essa forma algumas pessoas sugeriram dizer ” der Professorin = o professora” ou “die Professor = a professor” . Nao sei se isso tem a capacidade de neutralizar a linguagem mas pelo menos tem o efeito de ‘confundir’ o binarismo…

  19. Pingback: mini-manual pessoal para uso não-sexista da língua - alex castro

  20. Pingback: Androgyny « the sin without the sinner

  21. Estava traduzindo um texto e tentando deixar ele neutro. Não consegui sem o uso do x. Como vc me sugeria escrever isso de forma neutra, sem o uso do x:

    “Pessoas gays nascem e fazem parte de todas as sociedades do mundo. Elxs são de todas as idades, todas as raças e todos os credos. Elxs são médicxs, professorxs, fazendeirxs e bancxrios, soldadxs e atletxs. E, saibamos ou não, ou reconheçamos ou não, elxs são nossa família, nossxs amigxs e nossxs vizinhxs. Ser gay não é uma invenção ocidental. É uma realidade humana.”

    • “Pessoas gays nascem e fazem parte de todas as sociedades do mundo. Essas pessoas são de todas as idades, todas as raças e todos os credos. Essas pessoas [aqui você poderia usar "trabalham em todas as áreas: medicina, educação, etc etc etc", mas eu entendo que o sentido e a mensagem que você quer passar podem ser um pouco alterados] são médicxs, professorxs, fazendeirxs e bancárixs, soldadxs e atletas. E, saibamos ou não, reconheçamos ou não, são nossa família, estão em nosso círculo de amizade e comunidade (pode substituir por vizinhança, se preferir). Ser gay não é uma invenção ocidental. É uma realidade humana.”

      Foi o que consegui fazer, espero que ajude.

    • A partir do momento que você estabelece estar falando destas pessoas, não existe nenhum conflito em continuar tratando no feminino. Para quem lê, fica evidente que o feminino se refere a “pessoas” e não a “mulheres”.

  22. Parei em “Manual para uso não sexista da linguagem”
    É sério isso? E aproposito, não entendi nada do texto. Dicas: deixar de ser redundante e explicar sucintamente as coisas, afinal é um texto para as pessoas mudarem suas visões e não pra quem já tem essa visão. É um texto para quem não conhece essa visão e poderia muito bem ser partidária dela. abraços.

  23. Preocupo-me bastante com essa questão, mas ainda é difícil ver soluções. Quanto ao uso do X, concordo com seus argumentos para não usá-lo, mas não concordo com as soluções alternativas. Vez ou outra funcionam, mas todas elas buscam contornar a língua, assim como o X. O resultado é que o texto pode ficar empobrecido, cheio de repetições de pronomes, sacrificando legibilidade ou fluidez para que o texto não se torne sexista ou binário. Se todos os textos não-sexistas acabarem caindo em qualidade por conta disso, vejo essas medidas como um atraso. A língua muda constantemente e naturalmente, mas quando aplicamos novas regras nós mesmos, o nosso uso da língua pode se tornar hermético e as mudanças serão no máximo provisórias e condicionais.
    É possível mudar a língua não tão somente pelos signos que usamos, mas pelos significados que damos para esses signos. Penso que se eu, homem, estivesse em um grupo com mulheres, e se fôssemos referidos por “elas”, deveria eu ficar incomodado? Ofendido? Com o quê exatamente? Falo isso de uma posição de privilégio, claro, e mulheres vivem com este jogo de pronomes o tempo todo (não-binários, mais ainda). Mas acho que é importante perceber o quanto essas palavras falham em nos definir e que podemos domá-las, ao invés de ser domados por elas. Que uma mulher tome um artigo dito masculino para si e diga que aquilo o representa. Que um não-binário pode ser chamado de ele, de ela e ainda rir do fato do quão longe isso está de representar sua identidade (que muda constantemente, como a de todos nós). A questão de documentos e formulários é outra, já que a burocracia é sempre burra e atrasada, pois o seu papel é dividir pessoas em grupos como se fôssemos informação, e não processo. Outro ponto importante é o estudo da língua como ela já é, como por exemplo, não precisa contornar substantivos uniformes sobrecomuns (ela é a testemunha, ele é a testemunha, ele é um gênio, ela é um gênio, ele é uma criança, ela é uma criança…) pois funcionam pros dois. Os substantivos comuns de dois gêneros também são mais fáceis de se lidar: (o atleta, a atleta, o artista, a artista, o doente, a doente…) e muitas vezes não pedem por nenhuma modificação no texto, já que não são sexistas.

  24. Ótimo artigo!! Vou definitivamente começar a falar assim pra me referir a pessoas que conheço que são nb (era complicado, pq estas são Americanas, aí em inglês ultilizam o ‘they’…) Fico feliz de poder me referir a estas direito agora x3 especialmente pq de uma dessas pessoas eu sou bem próxima!!

  25. Pingback: mini-manual pessoal para uso não-sexista da língua | Portal Geledés

  26. Pingback: Mini-manual pessoal para uso não-sexista da língua | NNANNA

  27. Eu venho adotando a linguagem neutra de forma natural, por achar mais limpa e interessante. Agradeço pelo artigo; encontrei sugestões interessantes que não conhecia!

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